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‘Tudo é lindo em nome do amor’, no Galpão do Folias

“O que não se tem, o que não se é, aquilo de que se carece, esses são os objetos do desejo e do amor”.  A frase icônica de Platão nos dá pistas de como, ao longo do tempo, nós fomos construindo nossa imagem sobre o amor. Os filmes, as novelas, as músicas e grande parte dos produtos que consumimos desde crianças, em sua maior parte, reiteram esse estereótipo romantizado. Em Tudo é lindo em nome do amor, as duas atrizes, acompanhadas por uma banda de nove músicos, mergulham de cabeça nos clichês e cafonices do nosso imaginário amoroso para esgotar, torcer e questionar nossos olhares sobre as questões de gênero e nossos papeis sociais. O espetáculo estreia sexta-feira, dia 14 de setembro, às 21h, no Galpão do Folias.
Quais papeis de gênero são designados a mulheres e homens? Quais deles ainda desempenhamos sem questionar? Que imagens do feminino estão tão profundamente enraizadas que são tidas como ‘naturais’? Essas perguntas são colocadas para o público através de uma encenação que flutua entre as canções românticas, os enredos dos filmes de amor, alguns textos apaixonados falados em francês e italiano e cenas viscerais e densas que mostram um corpo mais animal do que humano. Essa dualidade traz para o espetáculo uma estética crua e performática, com base em elementos da dança e dramaturgia contemporânea.
 
Com nove músicos em cena, forma-se uma “quase orquestra” no espaço cênico do espetáculo. Violino, violoncelo, contrabaixo, piano, violão, sax, trompete, trombone, sousafone e percussão foram os instrumentos escolhidos pelo diretor musical Felipe Pan Chacon para compor a trilha que transita entre músicas popularmente conhecidas e ambientes sonoros que dão corpo à cena. A fisicalidade também é um dos principais eixos do trabalho. As bases que conduziram esse trabalho corporal foram os conceitos de esgotamento e celebração e o corpo entendido como matéria e afeto.
 
O Mito do Amor Romântico
 
O mito do amor romântico foi historicamente construído para atender a interesses específicos de uma sociedade cristã. É na origem do amor cortês medieval, por exemplo, que temos também a origem do ciúme, do sentimento de posse e de práticas de controle. Historicamente, é na era moderna (há poucos séculos) que romantizamos o casamento e propriamente o amor. O afeto foi inserido dentro de uma estrutura sócio-patrimonialista, que surgiu para atender compromissos de reprodução e formação do cidadão. Nesse contexto, interessava defender o romantismo como característica natural das mulheres e a fidelidade para garantir a origem da prole.

 

Ou seja, o “ethos” que produziu o amor romântico é de uma família baseada na dissimetria, na opressão da mulher e na exclusão pelo preconceito sexual. “O que interessa ao projeto dentro do campo do mito do amor romântico são seus clichês, rituais, gestos, discursos e coreografias sociais culturalmente construídas. Nosso desejo é olhar para estas práticas, investigá-las, tensioná-las e confrontá-las na tentativa de deslocar essas imagens profundamente enraizadas a respeito do papel da mulher”, contam as artistas Bruna Betito e Debora Rebecchi.
 
As artistas se conheceram no início de 2017 no Núcleo de Pesquisa do Grupo XIX de Teatro, ‘Feminino Abjeto’, coordenado por Janaína Leite, voltado a artistas de diferentes linguagens. Durante os seis meses de núcleo, se debruçaram sobre a obra da multiartista espanhola Angélica Liddell e sobre o conceito de abjeção cunhado pela psicanalista Julia Kristeva.  O estudo realizado no Núcleo de Pesquisa, além de adentrar nas profundezas do feminino, com suas abjeções e celebrações, levou as artistas a se questionarem cada vez mais sobre a normatividade, os papéis de gênero e a falência da sociedade tradicional. Percebendo o interesse em comum nos desdobramentos temáticos e formais surgidos no núcleo, as artistas iniciaram o processo de investigação da obra. O resultado desse encontro e tempo de pesquisa, Tudo é lindo em nome do amor,estreia dia 14 de setembro no Galpão do Folias.

 

 

Ficha Técnica
Tudo é lindo em nome do amor.
Concepção, direção e performance: 
Bruna Betito e Debora Rebecchi.
Direção musical e trilha original: 
Felipe Pan Chacon.
Músicos: 
Breno Barros, Bruno Cardoso, Bruno Nunes, Felipe Pan Chacon, Franco Orlando, Gabriel Eleutério, Gabriel Parreira, Glauber Bento, Rodrigo Zanettini.
Iluminação e Projeção: Laíza Dantas e Paula Hemsi.
Figurino:Yumi Sakate.
Som: João Candau.
 Temporada: de 14 a 23 de setembro, sextas e sábados às 21:00 e domingos às 19:00
Onde: Galpão do Folias. Rua Ana Cintra, 213 – Sta Cecília.

Ingressos: R$20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia).
Classificação: 16 anos.
Duração: 80 minutos.
Lotação: 99 pessoas.

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