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Crítica: Fúria Sobre Rodas

Não muito após o início da sessão de “Fúria Sobre Rodas, eu me vi às voltas com um importante questionamento: como diabos vou justificar o fato de estar curtindo tamanha porcaria? Porém, fui percebendo que justificativas seriam fúteis, porque é natural achar tão divertida uma obra que sai das tendências e consegue ser irreverente do jeito certo.

Pela sinopse, parece um suspense comum, protagonizável por qualquer astro meia-boca. Mas o astro meia-boca em questão é Nicolas Cage, e isso faz toda a diferença. Recém-fugido da prisão, Milton (Cage) está atrás do líder de um culto satânico, Jonah King (Billy Burke), que matou sua filha. Em posse da neta ainda bebê de Milton, King pretende sacrificá-la na próxima lua cheia para trazer o inferno à Terra.

Para temperar a mistura, Piper (Amber Heard) se junta ao protagonista, que ainda está sendo perseguido por um homem misterioso que se apresenta como o Contador (William Fichtner). E tudo isso (as pernas de Heard, a saraivada de balas, as perseguições automobilísticas, a canastrice de Cage) em 3D. Pode soar ridículo demais para ser verdade, mas, na verdade, não consigo expressar quão inacreditavelmente estúpidos são todos os 104 minutos de projeção.

É bom dizer, logo de cara, que o filme não é um arrasa-quarteirão, nem passa a anos-luz de ser. Que o orçamento esteja na casa dos 40 ou 50 milhões é um sinal de que algumas (ou muitas) pessoas foram tremendamente enganadas. Essa não é uma produção que diverte com sensação de culpa, dando pequenas injeções de racionalidade e coerência para apaziguar a platéia, e então mostrar que um filme grave pode também empolgar.

A parte engraçada é que a direção de Patrick Lussier de fato passa uma impressão de seriedade, que ele balanceia muito bem com o humor absurdo. Em vez de alardear seu senso de ridículo e carregá-lo como uma bandeira – como é quase regra nas fantasias urbanas hollywoodianas – Lussier finge que Milton é levado a sério, o que é ainda mais cômico, enquanto, não muito no fundo, a comédia borbulha sem parar.

Logicamente, quanto mais alguém se deixa levar por essa aparência, tão mais aborrecido ficará na sessão. Assistir a Ricky Gervais no último Globo de Ouro foi uma experiência semelhante: como não houve risadas de sitcom ao fim de todas as tiradas, a noção de comicidade se perdeu e foi vista como grosseria. Da mesma forma, o filme de Lussier ousou, num tempo de concessões (o absurdo cede à comédia, ao racionalismo fabricado, etc.), entregar gloriosos disparates em estado puro.

De que outro jeito encarar a promessa de beber cerveja no crânio de Johan King? Ou então as capotagens exageradas? E que tal o Contador, que é uma personificação da chachota trajando social? Muita graça se perde com uma postura declarada demais, e o diretor chega ao limite da autoconsciência sem entregar, de cara, que gastou milhões de dólares numa imensa palhaçada. Lussier e o co-roteirista Todd Farmer são habilidosos a ponto de inserir “piadas”, como que para quebrar algum clima – que não existe. Tudo faz parte da galhofa.

O humor explícito, por mais que venha em aparentes digressões, é apenas um pico na irreverência presente em cada guitarra arranhada da trilha sonora,  em cada pose badass esdrúxula de Milton e, claro, no inacreditável tiroteio sexual. “Fúria Sobre Rodas é diversão bruta, sem os recalques estéticos da moda para soar respeitável. É uma peça rara. Aproveite.

Escrito por Pedro de Biasi
Jornalista e Crítico de Cinema

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